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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Retornar, sempre

“(...) As tias avançavam aos arrancos como dançarinas de caixinhas de música nos derradeiros impulsos da corda, apontavam-me às costelas a ameaça pouco segura das bengalas, observavam-me com desprezo os enchumaços do casaco e proclamavam azedamente:

– Estás magro

como se as minhas clavículas salientes fossem mais vergonhosamente que um rastro de batôn no colarinho. (...)”
(António Lobo Antunes, Os Cus de Judas)

sábado, 15 de março de 2008

Gin tônica: como destilar vietnamitas (A Baía de Luanda)

(Há alguns posts comentei sobre as várias Luandas dentro de uma só. Eis outra casca, a Ilha. A dos bares, a dos expatriados, a da disco music, a do gin tônica, a da Baía.)

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Um pouco de gim, uma rodela de limão, tónica e gelo a gosto. Vamos começar os autos.

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Escrevo primeiro sobre certas vietnamintas de Ho Chi Minh de tempos pós colonialistas, fugidas de alguma toca sórdida de Luanda Baixa e que vestem-se sem qualquer critério, seguram seus cigarros em mãos trêmulas e amavelmente sorriem àqueles que cruzam o seu vago olhar.

Escrevo ainda sobre certas angolanas que saem na surdina de seus musseques, sumariamente vestidas e com o rosto todo borrado de pó e ruge (nem de longe lembram bonecas de porcelana chinesa de outros tempos colonialista) e que carregam ao tiracolo seus brancos velhacos e desacreditados.

Escrevo por fim (ainda não) sobre expatriados de um país distante do outro lado e de cá e que conheceram-se há alguns meses, por intermédio de um aliciador comum (que intenso, não?) e que desejam muito falar de si, de ouvir novas histórias e sonhos, conversam sobre ceviches de peixes brancos e cervejas homónimas. E que lentamente vão cercando-se, eriçando suas penas de pavões em noites de núpcias e preparando-se para o bote. Casa, saudades, mãe, carinho, solidão, medo, angústia.

E então o lápis começa a devanear sofregamente sobre a folha de papel amarelada a ponto de querer machucá-la e decifrar no segredo das nódoas (“não, não, isso não é uma xícara de café, é mais uma outra dose de gin tónica”) uma resposta para uma pergunta simples e decisiva:

– Quantos estertores ainda serão precisos para constatar que ficaremos sentados a noite inteira neste sofá?

. . .

(Existem os cargueiros a espera dos trâmites alfandegários na outra margem da Baía de Luanda abarrotados de gin tónica a apodrecer os ratos.)

. . .

– Mais tônica, por favor!