
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Prêmio Dardos

domingo, 16 de novembro de 2008
Três temas candentes
sábado, 4 de outubro de 2008
Quatro ou cinco apontamentos sobre Sumbe, capital política do Kwanza Sul
e nem mesmo das personagens babilônicas desta representação torpe e sem sentido que vem a ser estardesteladodecá, senhoras e senhores, ladies e gentlemen, as principais novidades deste circo dos horrores: o caubói russo à la harleydavidson e sua trupe de doutoras hermanitas e cubanas (“mucho gusto, yo soy lo remordimiento triste de Silvio Rodriguez, el cantante cubano que . . . bien, yo te estraño, cariño”), o casal trans-siberiano interrogativo e tão orientados quanto um avião de papel que aprende-se a dobrar logo nos primeiros anos de vida, o maratonista oriental com sua maleta 007, a última tecnologia em armazenamento de dados e um carro sem gasolina, suba aí, vamos para o mesmo lugar, a senhora vietnamita com seus chás cardiotônicos para indicações psíquicas e outros chistes (aplausos) e além, é claro, de uma amostra dos de sempre: os pescadores, as zungueiras, as crianças, os cachorros vadios, as galinhas, o peixe seco, o homem desconfiado, quilos de banana, quilômetros de estrada, imbondeiros, abacaxis, a polícia, chineses, brasileiros, expatriados de maneira geral, batatas da terra, carvão, a televisão estatal, bilhetes cancelados, lagostins, poeira, desminagem, mais crianças, escombros, carvão, arquitetura colonial, etc etc etc inúmeras vezes, misture uma porção de cada e deixe cozendo em fogo brando por trinta longos sóis e terá-se o leitmotif desta música triste que é estar neste lado de cá. (talvez nem fosse sobre Sumbe que precisasse falar, mas apenas exorcizar as águas profundas destas baías turbulentas).- Veja só, você foi aquela felicidade clandestina dos famintos que mordem o naco de pão depois de terem percorrido o longo deserto, a sensação quente de qualquer aperto ou carícia depois da longa ausência, mas tudo isso dura pouco, porque a clandestinidade só é sustentada por certos períodos e promessas de amores sem fim, caminhos cruzados e todo o blá blá blá sentimentalóide que você quer que eu engula como se fosse uma iguaria nababesca e amanhã ou depois diremos adeus e adeuses, é melhor dizer adeus quando estamos de partida para evitarmos não-ditos mais para a frente e à frente está a enigmática Igreja geométrica que já ficou para trás, vigiando toda a costa, diametralmente oposta (quantas idéias baratas) ao Farol metralhado e que não orienta mais nada, (e olhe só que o casal comunicou-se muito pouco)
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O perímetro das mumuílas
As histórias são muitas outras ainda, como a do hospital em Chibia, na Huíla, cuja ruas estão sendo asfaltadas pelos chineses e delimitando todo o perímetro no qual as mumuílas circularão pelas próximas semanas, cercando-as e deixando-as incomunicáveis, afinal,
– O cacimbo não foi tudo isso? O tempo do isolamento, dos três meses de seca, de agonia, de aperto, do céu nublado até as quatro da tarde, do sol das 16:59 que esconde-se novamente às 17:20, o tempo seco e cinzento das manhãs de junho e dos fins de tarde de agosto, o da incomunicabilidade, o dos silêncios velados? O tempo das partidas constantes, dos adeuses não ditos e esquecidos, as lágrimas que nunca saem mas estão lá na iminência da tempestade, o tempo da longa espera da tartaruga de patas para cima . . .
A cartografia do desejo
Este município é delimitado – e se depender dos chineses por pouco tempo – por quatro ruas. Na primeira rua, para quem chega pela estrada de terra esburacada e empoeirada, temos algumas casas antigas emboloradas por fora, com resquícios de pinturas em tons pastéis, algum comércio que vende tudo acima do câmbio oficial, a agência bancária e a casa de um senhor que faz ligações de longa distância.
As órbitas
Isto seria tudo. A semana teria acontecido dentro das conformidades, sem maiores imprevistos, tudo ao seu tempo, lógica, não fosse a asfaltagem de todo o perímetro onde está localizado o Hospital Municipal da Chibia. O alvoroço foi descomunal. As crianças não sabiam se corriam atrás do caminhão de piche, se carregavam um pouco do magma betuminoso para dentro de casa e o adorassem como relíquia arqueológica ou se continuavam a empurrar os seus carrinhos de rodas de latas de tomate e eixos de cabides desmontados em meio às máquinas e sirenes dos tratores. As mulheres mumuílas permaneciam interrogativas à toda situação sem saber o porquê e o para quê de toda aquela confusão, embora uma delas – motivo de meus devaneios antropológicos (ou seria delírio persecutório?) – tenha deixado de lado no dia seguinte a sua atitude contemplativa perante o caos dos chineses e tivesse colocado a mão na enxada e ajudado a cavar um fosso para a tubulação do esgoto para o saneamento do dejetos do hospital, cavado em boa parte na base da enxada e do olhar fixo, vago, sedento e esfomeado dos seus três filhos.
As leis da física
No final da semana a asfaltagem de Chibia ainda não havia sido concluída. Soube-se que dentro de uns poucos dias chegariam o governador provincial e o ministro de uma pasta aí para inaugurarem a barragem municipal, também impedida de ser fotografada. Sobraram os chineses, alheios a tudo e metidos nos seus próprios eixos de rotação, desconhecendo desviar a órbita das mumuílas e permitindo-se a todo o desejo possível, inclusive o de ser fotografado.
domingo, 10 de agosto de 2008
A memória da guerra (O sol depois das onze horas)
“Esquecer eu não consigo
O massacre de Kifangondo
Ali morreram camaradas
Ali morreram angolanos (...)”
(Massacre de Kifangondo, David Zé)
Vagarosamente também é a cristalização destas memórias, materializadas conforme a serração pesada da floresta tropical cede espaço ao sol monocromático das onze horas da manhã. A estrada de terra principal, que um dia foi asfaltada e onde as senhoras brincavam com seus filhos,
Aquele imóvel um dia foi um snooker bar, o ponto de encontro onde os senhores discutiam os rumos da política lambendo-se uns aos outros entre copos de Cuca e descascando o amendoim a partir das onze horas da manhã e que hoje não passa de um barracão escorado por vigas de madeira e o telhado descontínuo que o mesmo sol memorial ilumina e esclarece que o jogo no tabuleiro precisa ser terminado. (E neste momento a senhora que passa deve estar perguntando se a cisterna já foi abastecida para poder cozinhar os alimentos, lembrem-se da Kimbita),
A administração municipal, o que restou do prédio imponente e de estilo colonial, no ponto mais alto da cidade e estrategicamente empilhada no final da rua? Hoje não passa de uma casa mal assombrada onde o capim cresce por entre as telhas de barro musguentas, o pouco das vidraças apedrejadas que sobreviveram às mãos marotas dos irmãos deixando a fachada ainda mais decrépita,
O paiol de armas, o seu esqueleto enferrujado, todo reumático, a tentar manter-se de pé entre os figurões da luta armada hoje em pé de guerra com o grito de desespero das vozes dissonantes (“se nós estamos a insistir na paz, porque é uma aspiração genuína e profunda de nosso povo”),
sábado, 12 de julho de 2008
Desminagem, a estaca de duas cores
“Paihama pede solidariedade para com as vítimas das minas”
“Desminagem incidirá sobre áreas mineiras agrícolas”
“Chineses intensificam trabalhos de desminagem”
“Governo pretende consolidar acções de desminagem nas áreas mineiras”
terça-feira, 24 de junho de 2008
Kimbita
Cólera são águas salobras que escorrem pelas ruas sem asfalto e empoeiradas e pelas caídas da enxurrada, por todas as ruas da Baixa e em toda a extensão da Capital. São águas que acompanham o homem desde os tempos primordiais e ainda caminharão juntos por muito tempo e uma vez ou outra surge um John Snow mostrando que medidas simples como o saneamento básico são tão efetivas na prevenção da doença quanto o simples ato de lavar as mãos e os alimentos.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Retornar, sempre
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Rainha / Zungueira / Ginga
Zungueira é a negociante do mercado das ruas informais que percorrem toda a Luanda. Seja o pão por 25 kwanzas ou o tomate por 100 kwanzas a dúzia, elas são filhas de pais e mães sem nomes, guerreiros como elas e como muitas outras ao longo de muitos sóis.
A Rainha Ginga foi Rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI e XVII (1578 a1663). Considerada uma das primeiras líderes nacionalistas, lutou ferozmente contra a Metrópole. Símbolo da resistência angolana ao colonialismo português. Conterrânea de Zumbi dos Palmares, senhor das guerras e senhor das demandas.
As irmãs desta zungueira também são inominadas(véis?) mas podem atender pelo nome de Ana, Maria, Sila, Elsa, Glória, Bárbara, Engrácia, Rosa, Filomena, amém, seja feita a vontade de quem puder mais. São tantas as tranças destas guerreiras, são todas as cores estampadas nos panos, é quase nada o que recebem debaixo de tantos sóis.
Para reaver o seu território em poder dos portugueses precisou negociar a sua fé, sendo batizada então como Dona Anna de Sousa e suas irmãs Cambi e Fungi como Dona Bárbara e Dona Engrácia. Antes da capitulação refugiou-se numa ilha do rio Kwanza, mas a história que segue é que morreu de causas naturais segundo informações colhidas.
A zungueira vai de lá para cá com a bacia na cabeça e a criança no dorso oferecendo os seus produtos e é chegada a hora de revelar que a ladainha interminável e por vezes onírica que envolve o viajante todas as manhãs na Rainha Ginga nada mais é do que o pregão de uma distinta senhora que oferece a dúzia de carapinhas [peixe de água salgada servido grelhado] por 1000 kwanzas ao longo de toda a rua. O seu território é a Maianga, o Prenda, a Mutamba, a Baixa, o Mártires, os Palancas o comércio informal é combatido a chutes e pontapés (uma lágrima) pelos babas sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.
A senhora imortalizada na estátua de bronze, um dia Angola foi o reino Kongo, Cassange, Planalto Central, Huíla-Humbe, Matamba e Ndongo, a senhora vestal impõe-se soberbamente e empoeirada e de uma só vez no meio dos prédios incrédulos e sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Cem dias deste lado de cá
“La Rosa Náutica”, no caso de pensar em pedir a mão de alguém em casamento (o último romântico). As garças filtradas com lentes do pôr do sol em negativo (tendências monocromáticas). A senhora granulada capturada inesperadamente. Banzo pela primeira vez. Saudades negras, sentimentos de mortes. Saudades sempre de todos. Volte logo. Preciso[(amo)]s (de) você. Estar aqui e em nenhum lugar. (pausa).
Uma noite, uma luz, uma vela, uma sensação. Como é possível uma vela iluminar com tanta riqueza todas as curvas e arestas e detalhes e adornos e cores e ranhuras e imperfeições e grumos de barro de seis máscaras mortuárias atônitas,o pavio da vela
e
cansando-se
de permanecer
até que
mais vela,
mais nada,
e as máscaras continuarão repousadas na parede vermelha (não há luz, como saber se irão permanecer dependuradas nos mesmos lugares, isto é o fim? acenda outras velas então). A lua cheia dentro da noite escura dentro da varanda ocular dentro do quarto frio e cinzento dentro do coração apertado e choroso dentro
III

terça-feira, 15 de abril de 2008
GRN-F052, 吃拿
segunda-feira, 31 de março de 2008
O preço da água. Água de beber. (US$1 = 75 kwanzas = 30 litros de água)
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