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terça-feira, 15 de abril de 2008

GRN-F052, 吃拿

Avenida do Primeiro Congresso do MPLA. É final de tarde, já passaram-se alguns minutos desde que o sol se pôs. O céu rapidamente vai tornando-se alaranjado de permeio aos tons de rosa e de azul turquesa (em outro ponto da cidade há uma capa de chumbo tão sufocante quanto esta que segue) e o que se vê já é passado, são as leis da física e este prisma está com defeito porque algumas das cores estão e serão intraduzíveis. Será preciso um novo guia de identificação das nuvens porque o céu não limita-se a cumulunimbus e stratus e a criança vai precisar ser muito imaginativa para arriscar que aquela nuvem ali lembra o seu cachorrinho de estimação e que atrás dele vem um carro vruuummm. A sensação é de aperto, de vazio, de solidão, de saudades, tudo isto é sufocante e amedrontador, estamos todos deste lado de cá estamos todos voltando para casa. Há uma fresta de mar, porém não vem ao caso por ora.

Avenida do Primeiro Congresso do MPLA. É início da manhã. O caminhão do Governo da Reconstrução Nacional, de registro GRN-F052 saiu de Chicala, na ponta sul da Avenida Marginal (as vietnamitas recolheram-se às suas tocas) com cerca de trinta chineses na carroceria. Estão vestindo uniformes azuis ou cinzas esgarçados e sujos de cimento, capacetes verdes, chapéus de palha debaixo dos braços e uma trouxa na outra mão. O olhar de todos é vago e embaçado, por quê será que saudade é intraduzível? muitos têm fome, ainda nem são sete horas da manhã, a noite deve ter sido quente e escorregadia, por quê estamos todos nós e eu e eles deste lado de cá e não vamos voltar tão cedo para casa? Queremos todos voltar para casa. Cerca de trinta chineses enfileirados, ordenados, cabisbaixos e silenciosos prontos para mais um dia de trabalho na Avenida do Primeiro Congresso do MPLA. Nas obras da futura sede do Ministério da Justiça. Abrindo buracos por todo o trajeto da Avenida – os tapumes de proteção tentam explicar num chinês simplificado aos luandenses qualquer frase de orientação ou desculpem-nos pelo transtorno ou China International Fund Association. Estes trabalhadores precisaram abrir uma estrada e construir uma ponte às pressas para que os viajantes seguissem o caminho um dia desses na província.

Os chinocas estão cansados. Isto porque o trabalho nas obras da futura sede tem sido árduo ainda que bastassem umas pontes no interior do país e todas as lesões por esforços repetitivos ao cavarem buracos nas ruas para a passagem dos tubos de saneamento básico e agora os planos são outros e intempestivos e são mais um dois três muitos novos andares e paredes de vidro dourada de estética duvidosa que simulam temp(l)os faraônicos. E tal como a Esfinge devorando contumazmente os seus construtores com salários ridículos refletidos no olhar assustado(r) nas filas do supermercado simplesmente porque não entenderam a lógica de uma rima inocente: “China, um parceiro precioso ainda que polêmico e misterioso”.

Anoiteceu. Avenida do Primeiro Congresso do MPLA. O caminhão do Governo da Reconstrução Nacional, registro número F052/GRN-F052, recolhe cerca de vinte chineses misteriosos do portão de entrada da futura sede do Ministério da Justiça. Os olhares continuam vagos e embaçados, lembrem-se de que um dia todos fomos presos, os crimes não importam mais, a condição de degredados remeterá aos tempos em que a liberdade já foi preciosa, talvez um deles poderia recordar-se que seus pais também mudaram de cidade ou até mesmo de país, em épocas de outras revoluções e de livros vermelhos. O livro vermelho de hoje é onde são anotados as presenças, as partidas, os dias não trabalhados, a checagem da entrega do soldo. O livro vermelho de hoje ajuda este país rumo ao seu grandesaltoparaafrente.

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Os acordos entre Angola e China são estratosféricos. Somente no ano de 2006 os investimentos com a China ficaram em torno de 9,3 bilhões de dólares ou 697,5 bilhões de kwanzas ou 27, 9 bilhões de pães ou 697,5 bilhões de litros de água. Ou crianças esmolando uns kwanzas minha barriga está a doer tio e a água será um negócio sempre rentável. E aí a Esfinge lança ao viajante uma nova proposição para o seu enigma: GRN-D43. GRN-E015. GRN-F052. Governo da Reconstrução Nacional.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Moxico depois de dias

No terceiro dia fez sol em Luena.
Depois de dois dias nublados e de um frio noturnos suportável o sol surgiu assim, sem mais nem menos, seguindo a ordem natural das coisas e revelando por entre as sombras das acácias laranjas enfileiradas de ponta a ponta nas ruas esburacadas e sem fim as casas coloniais esquecidas e apinhadas de gente, pintadas em tons pastéis e desbotadas, com o mofo consumindo os tijolos e as conjuntivas.
Moxico é a maior província de Angola em extensão territorial, zona fronteiriça entre Zâmbia, Zimbábue e República Democrática do Congo, onde se vê com mais intensidade a mata de miombo, vegetação de savana da África Austral cortada por vários rios, o principal Luena e que dá nome à capital da província. E onde são discutidas segundo a hierarquia tribal as questões sobre a onda migratória dos elefantes e suas consequências para as estradas da região.
O hotel. Está na rua principal da cidade. É o único, construção modesta, sem maiores pretensões. Inicialmente construído nos tempos colonialistas, na década de 1960 e reativado em 1993. Parado no tempo. Dentro dos seus corredores intermináveis e labirínticos, com luzes de néon de açougue, a balaustrada toda empoeirada, os sofás de veludo roxo, os tapetes vermelhos rasgados, os ratos, as baratas, os gatos correndo pelos telhados, mais anofelinos para complicar a situação, percebe-se que Minotauro nunca vai sair dali eu daqui quatro dias e agora são horas de dormir primeiro ponto final.
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A janela do hotel serve como uma lupa para que se possa observar o microcosmo da cidade e o seu modus operandis. Logo cedo, os senhores de todas as idades vão posicionando-se na esquina, sentando-se de cócoras e conversando sobre a vida em geral. As crianças indo de mãos dadas para e escola trajando guarda-pós amarelados, as zungueiras vendendo carnes de caças e peixes secos enrolados, se essa lupa tivesse um volume escutaria-se sem dificuldades que o português castiço e incorrectível de Luanda rapidamente mistura-se à sons incompressíveis e todos começam a entender-se em tchowké. De repente são seis da tarde e o breu dominou a cidade (não há luz eléctrica nas ruas), são horas de deitar-se novamente.
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E foi em Luena que ouvi e vi as primeiras memórias da guerra, fato nunca a ser consumado, as sedes da UNITA, da MPLA e da FNLA (devem ter sido tantas as catanas que todas as bandeiras angolanas hasteadas pela cidade e nas estampas dos rapazes não seriam capazes de devolver todas as vidas e os sonhos de uma Angola libertária e libertada, qualquer sonho). E isto não foi tudo: existem as sedes provinciais que não se permitem às fotografias de um simples viajante e que quase chegam a custar a câmera, os tanques de guerra e os seus restos pela estrada, os carros de desminagem e as zonas proibidas, a Estrada de Ferro Benguela – Luena desativada e destruída, as paredes metralhadas,
E a senhora estava aqui no dia em que o Savimbe morreu? Sim, estava em casa e de repente vi sair para outros sítios uma carga encaixotada em metais com toda a cidade em volta parecia um animal e todo mundo s`amontoando em frente ao Cine, aquilo foi uma loucura do género! E a capitulação do Savimbe aconteceu no dia 22 de Fevereiro de 2002 e hoje está enterrado no Cemitério Municipal, sem mais plaqueta alguma de identificação, no Cemitério Municipal e de todos os nomes e de muitas histórias enterrado ele junto com suas macabrices
(e outra memória triste também: os sequelados das minas e da poliomielite, afinal a luta de Sabin são lembranças de outro combate não menos cruel e extirpante, e ainda os retornados do lado de lá, que são os refugiados para a Zâmbia, e deste lado tudo permanece como sempre foram, sem moradia, sem alimentação e escavados com uma intensidade veloz pelo vírus, de modo que não se sabe o que é que mata mais, se o paludismo, a tsé-tsé, a cólera, a desnutrição ou o básico assim: o analfabetismo, o descaso, a ignorância, a corrupção ou simplesmente as coisas são o que são ponto final).
Ah, o Cine Luena? Restou só um prédio velho, com os portões enferrujado (chove muito por estas épocas) e um letreiro banguela e provavelmente muitos enlatados da Propaganda esquecidos em alguma prateleira mas vivos na memória dos mais velhos.
E então chegamos à Praça da Bauca, mercado local à céu aberto, muitas barracas e estrados no meio de lixo e outros sequelados de kwashiokor com os olhares desolados, tristes, muito tristes. E fundos. Os peixes secos são vendidos à grosso. O rio Luena é muito fértil e logo ali, disse um dos motoristas, quando chove os bagres acumulam-se nos buracos das estradas: no cacimbo [estação das secas] eles pulam e são esmagados pelos caminhões ou pescados pelos das comunas. O mel é terapêutico, por via das dúvidas compra-se uma garrafa. As carnes de caça são abatidas em outros lugares e vendidas todas as partes ainda frescas, as moscas também querem participar da carnificina e toda aquela aula de anatomia ali exposta, onde cada parte é renomeada na língua local e o que é que este chyndele (branco) faz por aqui?
São horas de voltar para casa setenta minutos depois os tristes musseques zincados e empoeirados (seriam ocas de barro?) vão surgindo por entre nuvens e a Baía de Luanda ao fundo. Ficou para trás, perdida no tempo e tentando organizar-se na memória, a Angola arcaica e provinciana, confundida com a moderna e provincial.
Foi assim que eu vi Moxico em quatro cansativos dias de trabalho.