terça-feira, 18 de novembro de 2008

Três temas candentes

II. Sobre a medicina tradicional (o poder da cura)
A medicina tradicional sempre será a antítese de tudo o que aprendi durante a minha formação como médico, desde a objetividade das dissecações anatômicas ou dos cães de Pavlov dos primeiros anos de faculdade até as intermináveis cirurgias digestivas com suas vogais elípticas e os sintomas dos pacientes desordenados que não estavam nos tratados durante a residência médica. Não que eu tenho deixado de aprender. Aliás, sempre, e muito, ainda agora deste lado de cá. Antítese porque esta medicina que aprendo continuamente, baseada em conceitos bioquímicos, na farmacologia das drogas, na história natural das doenças (final feliz este o das doenças infecciosas pré aids, quando na maioria das vezes os pacientes curavam-se ou com sequelas mínimas) e baseada em evidências e que quer ser a mais racional possível vem agora a se juntar com o poder da cura de uma outra medicina, a medicina tradicional, a que sempre quis negar (embora de interesse sociológico e cultural) e que agora tenho que aprender. Medicina baseada em conceitos muito menos palpáveis (alguns não), como a fé (sim, é preciso ter), o “acreditar no sagrado”, nas raízes milenares e nas raízes trituradas no pilão de pedra, nos simbolismos e nos arquétipos, nos xamãs, nas dançarinas mukanda e seus rituais de circuncisão (nada mais que ritos de passagens), no poder das pedras, nas cabeças secas de animais dependuradas no kimbandeiro, nos emplastros, nos chás abortivos, nas escarificações terapêuticas, nas agulhas comunitárias, nas mutilações femininas, imaginar-se tentando explicar a uma mãe de cinco filhos HIV positiva, analfabeta, que precariamente esboça o português (ou serei eu o analfabeto, que mal consigo esboçar um "você está bem" em kimbundo?), cuja renda mensal é menor que 100 dólares, explicar que o ideal é não amamentar o seu filho recém-nascido no seio e sim alimentá-lo preferencialmente com leite artificial (uma lata sai por 30 dólares e não é suficiente para uma semana) é esforçar-se muito, não era esta a medicina que eu conhecia, aprender, a criança não morre de aids porque a história natural desta doença é interrompida pelo banho de cólera, quem lembrou de garantir a água filtrada no preparo do leite? E então eu deixo de racionalizar e fico consternado, aprender, quando abro o Jornal e leio que uma distinta senhora dita "doutora em medicina" cura os pacientes soropositivos [VIH positivos] com injeções de pentamidina, seguido de depoimentos dos projetos de Lázaros incentivando charlatanices para todas as direções, doenças e mau olhados. Porque são muitas as vezes que estes ditos usam-se das práticas tradicionais, julgando-se doutores kimbandeiros, para afirmarem terem a cura de doenças cujo horizonte clínico não são mais do que tênues linhas alaranjandas no céu das seis da tarde. Aprender. Mais algumas vezes.




3 comentários:

Rui disse...

Dizem que o que tira a gente do sério é algo que sabemos que não coseguimos mudar, por mais que nos esforcemos... Às vezes é realmente difícil constatar nossa pequenez... Incrível ver de novo estas fotos e ter a exata noção do que vc, com este ceticismo poético, relata.
Parabéns pela sua força e pela sua artéria, não só uma simples veia literária.
Abração!

Cássia disse...

Olá,
Simpatizei com o seu texto. Também vivo em Angola, Luanda há quase 1 ano e meio. Sou publicitária e trabalho como voluntária para uma ONG na área de SIDA.
Isso aqui é fonte de muito aprendizado, dentre tantos aspectos, pelo execício da persistência e da paciência.
Desejo-lhe um bom caminhar.
Abraço,
Cássia
cassiayres@hotmail.com

João Paulo Toledo disse...

Cássia,
olá, que bom que simpatizou-se com o meu texto, meu blog anda meio que no esquecimento. sobre exercício de persistência e paciência é o que mais treinamos aqui, principalmente na área da saúde. continue visitando-me. abraço, João Paulo